O Tóxico Pensamento Positivo

Mauro Stiegler

Diante dessa tarde outonal, depois de refletir sobre deveres físicos ( exercícios, alimentação saudável e sono reparador) mergulho nos clássicos que tenho em mãos...

Depois de avançar produtivamente em Irmãos Karamazov , adentro-me em Suicídios Exemplares, de Enrique Vila-Matas, escritor espanhol, não muito conhecido, mas no universo literário contemporâneo muito cultuado.

Através de contos bem elaborados e com doses altas de realismo, o autor fala da complexidade não do suicídio em si mesmo, mas do quase irresistível desejo da execução por parte do desejante.

Através dessa leitura, dá-se conta que entre cotidianos que perderam o sabor e o significado para os que sofrem de depressões maiores acrescidas de problemas existenciais por hora insolúveis, ouve-se um rufar de tomadores, sedutores, caprichosos, a convidar os(as) cansados(as) viajores(as) da vida para que encontrem com o príncipe negro do país dos suicidas... Sutilezas que transitam entre ausência de gestos de afeto e reconhecimento por parte daqueles pares que o(a) sofredor(a) ama, infindáveis recomeços e imediatos e sucessivos fracassos nos mais variados setores da vida comum, são ingredientes que passo a passo embriagam os sentidos de quem assim padece; a opção da fuga, do desaparecimento, cada vez mais ganha evidência de ser a saída mais plausível...

Tive a felicidade de ter grandes professores na faculdade. Um deles em uma daquelas exposições que pela maioria passa despercebida, enfatizou que acima de livros técnicos e pós graduações, que nos dedicássemos a ler os grandes clássicos da literatura universal, pois ali de maneira mais detalhada e enriquecida compreenderia-mos de forma ímpar os sofrimentos e mazelas humanas...Nunca esqueci isso e assim faço: Dostoieski, Sartre, Graciliano Ramos, Tolstoi, Clarice Lispector, etc....

Nesse viés, nota-se o perigo de uma pseudociência que diante de uma queixa grave de ideação suicida ou depressões maiores traz como receita apenas o tal "pensamento positivo.

A vida é linda; saia fazer uma caminhada; para de pensar besteira; tire isso da cabeça; agradeça por não te faltar nada.... Essas palavras em casos graves são literalmente agressões dirigidas às pessoas que sofrem nesse grau; colaboram ainda mais para o agravamento e até a consumação do suicídio.

Somente depois de uma autópsia detalhada das causas da ideação suicida e paralelamente de um tempo/lugar para que o paciente narre de forma livre suas vontades de morte e seus sofrimentos é que paulatinamente se estabelece uma nova "rede neural" onde esforços, retomadas de afazeres e sonhos abandonados devem ser incentivados.

Nesse sentido, continuamos afirmando: é de compreensão ampla e repertório robusto que o mundo dos sofrimentos psíquicos carece.



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