O abismo é a porta para um novo destino

E se tu olhares, durante muito tempo, para um abismo, o abismo também olha para dentro de ti. Friedrich Nietzsche.

Mauro Cesar Telesphoros Stiegler - Psicólogo Clínico - CRP 12/17668

Em uma de suas obras literárias, o filósofo da suspeita, Friedrich Nietzsche, nascido em 1844 em Rocken, na Alemanha, convidava o homem moderno ao mergulho de si mesmo, sem reservas, mas consciente dos riscos de tal empreitada. Por isso quando Nietzsche falava do conhecimento de si mesmo, ele se utilizava do termo "abismo" implicando a ideia de uma viagem sem fim, sem limites. 

 Nietzsche fazia menção ao abismo referindo-se ao arquipélago individual insondável de cada um, pouco explorado, mas que pede urgência em ser conhecido, sem com isso dizer que precisamos antes do sofrimento para tal expedição.

 No entanto, na contemporaneidade, haja vista a ansiedade que nos vestimos diariamente, o abismo passou a ser sinônimo de sofrimento. Pulando degraus importantes de reflexão que a palavra convida, logo cuidamos de emprestar (isso é quase um roubo) mais esse termo e adequá-lo à nossa ânsia em dar nomes diversos e mais abrangentes para nossa própria dor. Mesmo em contextos diferentes, a palavra abismo não perde o sentido de profundidade que na essência traz.

 É comum expressões como: " estou num abismo de dor", "cavei um abismo para mim mesmo", "preciso sair deste abismo", todas na tentativa de dar ideia de sofrimento ou angústia.

 Mesmo sob esse contexto, podemos aproveitar essa imersão nas próprias dores abissais que nos assaltam e tecer os primeiros ensaios da própria reinvenção pessoal.

 Mergulhar no abismo de si mesmo é descer as escadarias dos porões inexplorados do nosso próprio ser, olhando sem julgamento as sombras negras e douradas que lá jazem e sequencialmente diluir as escuras e lapidar as que realmente reluzem. Quiçá as depressões ou a falta de sentido existencial nos levem para essa paisagem aparentemente grotesca ou cinza, para que das cinzas retratadas ali como sinônimo de lutas e quedas violentas, podermos simbolizar o surgimento da fênix renovada e madura.

 Quando gritamos a dor mais profunda no abismo solitário de nós mesmos, imediatamente o personagem mitológico Eco se faz presente, nos transmitindo a mensagem de que o artífice da própria dor somos nós mesmos, sendo que o terapeuta principal também somos nós, por isso o eco, para que possamos nos escutar e compreender nosso papel no sofrimento individual.

 As formas e contextos contemporâneos de nos sentirmos num abismo avançam em subjetivações desafiadoras: a solidão, a falta de sentido, a liquidez das relações, a fragmentação da família, são sofrimentos que fazem eco aos nossos ouvidos moucos (surdos por opção) até que insuportável se torne o despenhadeiro avistado instante a instante e nos resolvamos por fazer uma leitura lúcida do seu significado.

 Muitas são as personagens históricas geniais que contam suas vidas em contexto do antes e depois de se verem num abismo ou mergulharem nele. Numa quase unanimidade as descrições e narrativas dão conta de que o sentido da vida ou a cura de si mesmos foram elementos que surgiram após a excursão naquele país desconhecido e assustador, ou seja, a vida ganhou significado e os fez grandes de verdade. Um novo destino era confeccionado.

 E você, o que está fazendo da oportunidade de entrar pela porta do abismo e dar novos rumos á sua jornada?

 O abismo bem entendido, trás essa oportunidade: um destino novo!

 A conhecida frase: "Homem, conhece-te a ti mesmo", atribuída a Sócrates e valorizada por Platão, mas que sabemos ser anterior aos dois, nunca talvez foi tão atual e de caráter emergencial, seja para nos curar, seja para nos lembrar das nossas potências adormecidas.

 Pela dor ou pelo amor, olhe para seu abismo...




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