Das despedidas e dos pontos finais

Mauro Cesar T. Stiegler

(...Lembra-te de esquecer...) Immanuel Kant

 Das aspirações mais frenéticas de quando ainda somos adolescentes é aquela de completar o tal 18 anos; ser de maior, para melhor dizer, isso no século passado, visto a adolescência hoje ter outras configurações e por isso estender-se quase indefinidamente; o que teria muito mais a ver com imaturidade do que subjetivações de um novo tempo, mas tudo bem, isso é para outra coluna...

 O que venho dizer no espaço desta semana é sobre as aspirações que temos de pertencer ao grupo de maioridade, de adultos, sendo que logo que somos admitidos nesse universo, sentimos as refregas e realidades hostis que nos aguardavam. É, não dá mais para voltar os anos e desincumbir-se das responsabilidades de gente grande.

 Uma das barreiras que existe nesse sentido refere-se ao campo das relações, dos namoros, casamentos ou partilhas afetivas. Explico: a dureza de um término, de um adeus por parte de uma das partes da relação, muitas vezes não é aceita ou suportada pelo outro, digamos pelo rejeitado da história; aí que entra os conflitos que chocam-se com a idade cronológica do sujeito e com sua idade psicológica. Ou seja, logo se vê que diante principalmente das relações a idade nada tem a ver com maioridade, psicológica e filosoficamente falando.

 O filósofo Immanuel Kant (1724-1804) citado acima, já discorria sobre esse tema: o quanto é necessário construções internas vigorosas para de fato adquirirmos maioridade.

 Neste aspecto, no campo relacional em que nos movimentamos, quando o ciclo se fecha ou as coisas se tornam adoecidas e tóxicas tornando-se insuportável a convivência ou a parceria para um ou ambos os lados, de modo geral uma das partes tem dificuldade em dar ponto final e de fato despedir-se do contexto em que vive.

 Parece fácil. Nos estágios desse luto que representa o fim de um relacionamento, quando tomados pela raiva dependendo do caso, logo juramos que não queremos mais saber, que nunca mais, que queremos distância e etc...Passado dias ou semanas, conforme conteúdos psíquicos ressurgem no campo dos sentimentos ou emoções, já achamos pretextos para uma mensagem no watzzapp, postamos uma tal "indireta" nas redes sociais, e se não surtir o efeito desejado corremos atrás, imploramos por uma chance, se expondo sem perceber num campo de agressão e auto agressão pedindo por migalhas...

 Coisas do amor e da paixão diriam uns; sim, faz sentido, mas importa refletir e medir o "índice" da própria auto estima ou amor próprio neste momento. Se faz urgente analisar o quanto a vida estacionou desde que fizemos de uma pessoa a "razão" da nossa vida, o que constitui um suicídio indireto fazer tal proposta a si mesma(o).

 Nesse sentido, os jargões como: "virar a página", partir pra outra", "vida que segue" ou " "a fila anda", ainda são bem mais expressões mascaradas do que realmente verdades internas.

 Pode parecer loucura, mas lutar menos para que um amor de certo, pode ser a chave para dar certo. No campo das relações há uma diferença enorme do campo das profissões, das carreiras e das conquistas em geral: não há meritocracia , ou seja, não adianta surpreender constantemente, dar mil presentes caros, submeter-se a caprichos do outro. Essas são apenas fórmulas empobrecidas de manter algo sem base em direção a ruína.

 Respeito mútuo, reciprocidade nas gentilezas, tolerância e esforços por inovações na relação: isso sim é válido. Agora, a anulação de si mesma(o) esforços hercúleos e intermináveis para o tal agradar sempre, é furada.

 Vim até isso para dizer que ser realmente de maioridade confere ter capacidade e coragem para dar ponto final, despedir-se realmente e seguir, entendendo que a vida é bem mais do que aquela única pessoa entre outras bilhões que você pensa que depende para viver.



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