A Geleira Azul e o Caos

(...) é preciso antes descer aos infernos para depois visitar os céus(...) Carl Jung

Mauro Cesar Telesphoros Stiegler - Psicólogo Clínico - CRP 12/17668

Há, de forma bem exposta, uma oferta e ao mesmo tempo uma procura por milagres baratos e por consequência também por uma vida distante dos dissabores e das tragédias cotidianas e naturais. 

Não sabemos se por cansaço ou infantilidade, ou ainda por impostura, tratou-se de nos últimos anos, estereotipar a vida como se a mesma fosse um eterno riso ou uma constante e plena felicidade.

Os estereótipos de tal "qualidade" estão nas vitrines das redes sociais: sempre namorando com alguém interessante e esbanjando felicidade, sempre ganhando muito bem, sempre linda, sempre bem sucedido, sempre desejado e cobiçado e cobiçada.

O desprezo às experiências de adversidades e até de sofrimento, foram relegadas ao ruim, ao mal, ao desprezível. É ofertado uma constante anestesia...

Perdemos muito com essa proposta; já não mais usamos de alavanca os obstáculos para nos lapidarmos e crescer; preferimos terceirizar e exigir a imediata volta à zona de conforto e ao padrão dito invejável.

Em 1981, João Bosco Aldir Blanc, presenteiam o público brasileiro com a música "Corsário". Obra prima da MPB, traz reflexões impactantes em torno de temas como solidão e saudade.

O personagem que configura os sentimentos evocados pela canção diz frases frases como; "vou partir a geleira azul da solidão e me arrastar até o mar" e como esta: "bendida a lâmina grave que fere a parede (as paredes da alma paralisada) e traz as febres loucas e breves".

Aqui os autores bendizem a dor como propulsora de novos movimentos, eles não expulsam o sintoma e a angústia sem lhes dar atenção.

Guardadas as devidas proporções, a maioria de nós procura estancar a dor ou a angústia indo para as anestesias da vida; aprendemos pouco, reclamamos muito e perdemos a oportunidade de crescer.

Da mesma forma Nietzsche, filósofo alemão nascido em 1844, afirmava que ; é necessário que haja antes um caos em mim para surja então uma estrela".

Loucura ou masoquismo abraçar o sofrimento e aprender com ele?

Aqui não se fala de procurar o sofrimento ou a dor, de se autoflagelar; fala-se de entender-se como seres complexos e que hora estagiam na dor e outrora no no riso largo.

Ora pois, o que mais se vê são propostas mirabolantes para extinguir integralmente com a dor e entrar para uma vida de constante paz e amor e gozo. É maior ainda o número de indivíduos que embarcam nessa. E se vê na realidade toda essa proposta em andamento, realizada?

  Nunca tanto suicídio e sofrimentos psíquicos; abuso de drogas e conflitos dos mais variados; então no mínimo há algo errado nesse modelo de vida e mundo sem sofrimento e frustrações.

Lágrimas, angústia, saudade, medos, alegrias, prazer e felicidade, ao contrário do que pensamos, adam de mãos dadas; fazem parte desse pacote chamado vida; mais ainda que isso: são sinais que estamos vivos.

Diante disso, que tal pensar menos sobre essa tal qualidade de vida perfeita e pensar mais sobre uma vida qualificada, de experiências, riscos, choros e risos?



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