Santificação através do meu trabalho. É possível?

O trabalho é a vocação inicial do homem, é uma bênção de Deus, e enganam-se lamentavelmente os que o consideram um castigo

Jaqueline Costa / Lívia Miranda / Fiama Valenga / Rosamaria Hahn
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O Senhor, o melhor dos pais, colocou o primeiro homem no paraíso, “ut operaretur” - para que trabalhasse. (Sulco, 482)

Para seguir as pegadas de Cristo, o apóstolo de hoje não vem reformar nada, e muito menos desentender-se da realidade histórica que o rodeia... - Basta-lhe atuar como os primeiros cristãos, vivificando o ambiente, assim dizia São Josemaría Escrivá.

 “O que sempre ensinei — desde há quarenta anos — é que todo o trabalho humano honesto, intelectual ou manual, deve ser realizado pelo cristão com a maior perfeição possível: com perfeição humana (competência profissional) e com perfeição cristã (por amor à vontade de Deus e a serviço dos homens). Porque, feito assim, esse trabalho humano, por mais humilde e insignificante que pareça, contribui para a ordenação cristã das realidades temporais — a manifestação de sua dimensão divina — e é assumido e integrado na obra prodigiosa da Criação e da Redenção do mundo: eleva-se assim o trabalho à ordem da graça, santificando-se, converte-se em obra de Deus, operatio Dei, opus Dei.”

Ao recordar aos cristãos as palavras maravilhosas do Gênesis — que Deus criou o homem para que trabalhasse —, fixamo-nos no exemplo de Cristo, que passou a quase totalidade da sua vida terrena trabalhando numa aldeia como artesão. Amamos esse trabalho humano que Ele abraçou como condição de vida, cultivou e santificou. Vemos no trabalho — na nobre fadiga criadora dos homens — não só um dos mais altos valores humanos, meio imprescindível para o progresso da sociedade e para o ordenamento cada vez mais justo das relações entre os homens, mas também um sinal do amor de Deus para com as suas criaturas e do amor dos homens entre si e para com Deus: um meio de perfeição, um caminho de santificação. (Questões Atuais do Cristianismo, 10)

Esse é o lugar do cristão, do leigo. Jesus quer que nos santifiquemos no trabalho, na universidade, dentro de casa, no futebol com os amigos, nas reuniões, no mundo, dentro das nossas atividades normais e cotidianas. Deus não espera que façamos coisas extraordinárias.

“Deus nos espera cada dia: no laboratório, na sala de operações de um hospital, no quartel, na cátedra universitária, na fábrica, na oficina, no campo, no seio do lar e em todo o imenso panorama do trabalho” (São Josemaría).

Precisamos sair da ideia que o cristianismo só vive no templo. Não! O nosso lugar há de ser o mundo de cada dia. Temos que superar as antinomias espírito/matéria, mundo eclesiástico/mundo comum, tempo/vida corrente. É no meio da vida conturbada, agitada que acontece o encontro com Deus. É na vida real, de carne e osso que daremos testemunho do amor de Deus por cada um de nós e pelo mundo que Ele criou.

Um homem ciente de que o mundo - e não só o templo - é o lugar do seu encontro com Cristo, ama este mundo, procura adquirir um bom preparo intelectual e profissional, vai formando - com plena liberdade - seus próprios critérios sobre os problemas do meio em que se desenvolve; e, por consequência, toma suas próprias decisões, as quais, por serem decisões de um cristão, procedem além disso de uma reflexão pessoal, que tenta humildemente captar a vontade de Deus nesses detalhes pequenos e grandes da vida através da fé e dos ensinamentos que Cristo revelou por meio de sua Igreja.

"Meus filhos: aí onde estão nossos irmãos os homens, aí onde estão as nossas aspirações, nosso trabalho, nossos amores — aí está o lugar do nosso encontro cotidiano com Cristo. Em meio das coisas mais materiais da terra é que nós devemos santificar-nos, servindo a Deus e a todos os homens." (São Josemaría).

É a liberdade que abre caminho para que também o cristão assuma a sua identidade cristã na vida diária. Sem coações nem constrangimentos. Se o cristão viver genuinamente enraizado em Deus e aberto aos concidadãos sem qualquer discriminação, melhor fará ver que a cidadania da sua fé não só não é uma ameaça como é uma contribuição positiva para a harmonia e progresso social.

E como posso santificar o meu trabalho? Através de um motivo, uma razão: o amor a Deus e aos demais por Deus, que influi radicalmente na própria atividade, fazendo com que se realize bem, com competência e perfeição.

Qualquer tarefa digna e humanamente nobre pode converter-se num trabalho divino, desde que façamos como um amor sincero. A vida de muitas pessoas deu uma virada ao conhecerem esta doutrina e, por vezes, só por ouvirem falar de santificação do trabalho. Homens e mulheres que apenas trabalhavam com horizontes terrenos, de duas dimensões, e que se entusiasmam ao saber que o seu trabalho profissional pode adquirir uma dimensão transcendente, com relevo de vida eterna.

O próprio Jesus passou a sua vida em Nazaré, trabalhando bem, a exemplo de seu pai adotivo, São José. A vida oculta do Senhor não foi em vão, Deus quis que tomássemos por exemplo toda a vida do Senhor, especialmente a Sua vida escondida, Sua vida de trabalho comum no meio dos homens.

O trabalho nos é uma ocasião de desenvolvimento da própria personalidade, vínculo de união com os outros seres. Graças à luz de Deus o trabalho profissional é realidade santificável e santificadora. Essa verdade simples e magnífica nos é ensinada pelo Magistério da Igreja, sobretudo a partir do Concilio Vaticano II e recolheu depois no Catecismo, assinalando que “o trabalho pode ser um meio de santificação e de animação das realidades terrenas no Espírito de Cristo”. Dizia São João Paulo II – “Cristo convoca todos a santificarem-se na realidade da vida cotidiana; por isso, o trabalho é também meio de santificação pessoal e de apostolado quando se vive em união com Jesus Cristo”.

Revelado no livro do Gênesis, Deus nos dá o sentido para o trabalho: “quis livremente criar um mundo ‘em estado de caminho’ para a perfeição última”, e criou o homem ut operaretur, para que com o seu trabalho “prolongasse de certo modo a obra criadora e alcançasse a sua própria perfeição”. Portanto, para um cristão o trabalho aparece como participação na obra criadora de Deus.

Sendo assim, o trabalho santifica-se de fato quando se realiza por amor a Deus. Dizia São Josemaría que “para a grande maioria dos homens, ser santo supõe santificar o próprio trabalho, santificar-se em seu trabalho, e santificar os outros com o trabalho”.

São três aspectos de uma mesma realidade, inseparáveis e ordenados entre si. O primeiro é santificar – fazer santo – o trabalho, a atividade de trabalhar. Santificar o trabalho é tornar santa essa atividade, fazer santo o ato da pessoa que trabalha. Disto dependem os outros dois aspectos, porque o trabalho santificado é também santificador; santifica-nos a nós próprios e é meio para a santificação dos outros e para inundar a sociedade com o espírito cristão.

Um ato nosso é santo quando é um ato de amor a Deus e aos outros por Deus, um ato de amor sobrenatural – de caridade – o que pressupõe, nesta terra, a fé e a esperança. A realidade santificadora do trabalho ocorrerá quando realizamos nossas atividades por amor a Deus, para dar-lhe glória – e, consequentemente, como Deus quer, cumprindo a Sua Vontade, praticando as virtudes cristãs informadas pela caridade – para oferece-lo a Deus em união com Cristo.

“Coloca um motivo sobrenatural na tua atividade profissional de cada dia e terás santificado o trabalho”. Com esta frase, o fundador do Opus Dei animava o espírito de muitos cristãos desanimados, mostrando-os a chave para a santificação por meio do trabalho.

“O decisivo não é, portanto, que saia bem, mas que trabalhemos por amor a Deus, já que isto é o que Ele procura em nós: Deus olha o coração. O decisivo é o motivo sobrenatural, a finalidade última, a retidão de intenção da vontade, o realizar o trabalho por amor a Deus e para servir os outros por Deus. Eleva-se assim o trabalho à ordem da graça, santifica-se, converte-se em obra de Deus, operatio Dei, opus Dei”.

Santificar o trabalho, portanto, não consiste essencialmente em realizar algo santo enquanto se trabalha, mas em tornar santo o próprio trabalho.

Só depende de nós, cristãos, anunciar bem alto que o trabalho é um dom de Deus, e que não faz nenhum sentido dividir os homens em diferentes categorias, conforme os tipos de trabalho, considerando umas ocupações mais nobres do que as outras, pois o amor torna grande tudo que é pequeno. O trabalho, todo o trabalho, é testemunho da dignidade do homem, do seu domínio sobre a criação; é meio de desenvolvimento da personalidade; é vínculo de união com os outros seres; fonte de recursos para o sustento da família; meio de contribuir para o progresso da sociedade em que se vive e para o progresso de toda a humanidade.

“Está-te ajudando muito - dizes-me - este pensamento: desde os primeiros cristãos, quantos comerciantes não se terão feito santos? E queres demonstrar que também agora é possível... - O Senhor não te abandonará neste empenho”. (Sulco, 490)

Texto elaborado por Daniel Fernandes Monte da Costa



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