Narrativas e divindades

Dirceu Detroz

Os humanos são uma raça com muitas perguntas. A ciência oferece muitas respostas. As certezas são pouquíssimas. Sejam elas quanto ao passado, ao presente e ao futuro. Com poucas certezas, se abre um imenso leque para o surgimento de narrativas. As narrativas exerceram papel preponderante na evolução humana.

Atualmente a ciência sabe que um cometa com 150 km de diâmetro passará pelo nosso Sistema Solar em 2031. Um dos seus descobridores é brasileiro. Agora imaginem um grupo de humanos ao redor de uma fogueira. Além dos perigos que a noite trazia, de repente, ver surgir no céu algo nunca visto.

A divindades e os deuses foram criados pelos humanos na tentativa de explicar o inexplicável até então. Nos dias atuais, por exemplo, seria impossível criar a narrativa de que um raio despedaçando uma árvore é obra de uma divindade. A mitologia nasceu das narrativas que acompanharam a evolução.

A melhor matéria-prima para se criar narrativas é o temor. O temor tem o poder de nos fazer acreditar com mais intensidade. Os governantes abusam delas. As crenças abusam delas. Para se preservarem as sociedades abusam delas. Ouvimos belas narrativas desde o berço. Nos bancos escolares os alunos são educados por muitas narrativas. Acreditam sem questionar.

A reportagem de capa da revista Veja desta semana, fala sobre o avanço da estupidez. Segundo pesquisas, a inteligência humana estaria regredindo. Dedos são apontados para as redes sociais e a polarização política. É muito interessante o que diz o neurocientista francês Michel Desmurget no seu livro "A Fábrica de Cretinos Digitais". Filhos menos inteligentes que os pais é preocupante.

A raça humana não está sabendo como lidar com as narrativas do seu presente. A nuvem negra do negacionismo tomou conta de todo o horizonte. As narrativas chegadas desta nuvem querem fazer acreditar que está tudo bem com o planeta Terra. Se for necessário, no momento certo seremos socorridos e salvos por alguma divindade. Por algum representante da divindade. Há a crença na narrativa de que basta saber rezar.

De alguma maneira, os avanços tecnológicos estão fazendo os humanos atuais repetirem seus antepassados ao redor de uma fogueira. Com seus brinquedinhos nas mãos, assistem ao nascimento de novas divindades e deuses.

O altar da inteligência artificial vem sendo cada vez mais venerado. Milhões são oferecidos por milagres. Na segunda-feira ao sair para passear, o mundo ficou de joelhos rezando pela sua volta. Se nos restam as narrativas, a certeza é que devemos temer o futuro com nossos brinquedinhos. Com um Q.I. retrógrado e estupidez.



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